Gilmar tem Mendonça como novo rival no STF, e relator do Master vê tentativa de descredibilizar investigação

Entenda em 5 pontos as controvérsias e lacunas em falas de Gilmar no Roda Viva

Gilmar tem Mendonça como novo rival no STF, e relator do Master vê tentativa de descredibilizar investigação
Gilmar tem Mendonça como novo rival no STF, e relator do Master vê tentativa de descredibilizar investigação

Luísa Martins-brasília, Df (folhapress) - 25/06/2026 18:32:42 | Foto: Reprodução Goiás 246

Após meses de críticas contundentes direcionadas ao presidente do STF (Supremo Tribunal Federal), Edson Fachin, o ministro Gilmar Mendes elegeu o colega André Mendonça como seu novo rival na corte, devido à postura do colega na condução do inquérito sobre o Banco Master.

Mendonça, por sua vez, disse a pessoas próximas ver as críticas públicas feitas pelo decano como uma tentativa de descredibilizar as investigações sobre as fraudes financeiras. Devido a isso, ele já antevê uma agenda de embates na Segunda Turma, onde serão julgados os próximos capítulos do caso.

Na correlação de forças do STF, Gilmar e Mendonça fazem parte de alas opostas. O decano tem o apoio dos ministros Flávio Dino, Alexandre de Moraes e Cristiano Zanin, enquanto o relator do Master é apoiado por Luiz Fux, Kassio Nunes Marques, Cármen Lúcia e Fachin. O ministro Dias Toffoli transita entre os dois grupos.

Gilmar é o único do seu grupo que integra a Segunda Turma, e por isso ficou isolado na votação em que se deliberou pela manutenção da prisão de Henrique e Felipe Vorcaro, respectivamente pai e primo do ex-banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Master.

Na sessão do dia 16 de junho, o decano disse que delações premiadas não podem ser obtidas em ambientes de pressão e sugeriu que Mendonça teria, indevidamente, interferido nas negociações com Vorcaro. Os acordos oferecidos pelo ex-banqueiro foram rejeitados pela PF (Polícia Federal) e pela PGR (Procuradoria-Geral da República).

"O direcionamento de uma delação premiada para atingir alvos políticos predeterminados não somente macula a voluntariedade do pretenso acordo como descredibiliza por completo qualquer produto que resulte da suposta colaboração", disse Gilmar, que compara o caso à Operação Lava Jato, marcada por questionamentos sobre a atuação das autoridades responsáveis.

O pano de fundo para a crítica de Gilmar foram notícias de que Mendonça havia rechaçado a possibilidade de homologar um acordo em que Vorcaro entregasse determinadas autoridades e poupasse outras, como ministros do Supremo. O relator do Master chegou a falar publicamente: "Perderam o pudor. Queriam fazer delação seletiva. Na minha cara".

Mendonça também respondeu a Gilmar, durante a sessão, que o processo em julgamento não tinha relação com a Lava Jato, mas com "a maior fraude financeira da história do nosso país". Ele deu razão ao decano sobre a impossibilidade de se determinar uma prisão com o objetivo de obter delação. "Seria um absurdo, e não me presto a trabalhos dessa natureza."
Em entrevista à Folha no fim de maio, Gilmar -embora sem citar nominalmente Mendonça- já havia se manifestado contra o que classifica como "autoritarismo penal-judicial", em que o regime de prisão é definido pelo juiz conforme a disponibilidade do investigado para delatar.

Com aval de Mendonça, Vorcaro foi removido do Presídio Federal de Brasília para a superintendência da PF, em um movimento à época interpretado como um aceno para o avanço das tratativas para a delação. Agora que as propostas foram negadas, está pendente de análise pelo ministro o retorno do ex-banqueiro à unidade prisional anterior.

Na segunda-feira (22), Gilmar voltou a criticar Mendonça em público. Ao ser entrevistado pelo programa Roda Viva, da TV Cultura, disse que o colega agiu com "impropriedade" ao receber os advogados de Vorcaro. "A lei não permite que o relator participe da delação. O acordo é entre o Ministério Público [ou a PF] e o delator. Então, aqui já há um erro crasso."
Auxiliares de Mendonça afirmam que ele recebe advogados rotineiramente, nos termos previstos na Loman (Lei Orgânica da Magistratura) e no estatuto da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil), e reforçam que o ministro não vai alimentar o embate público, mas seguir seu trabalho com imparcialidade.

Esses mesmos interlocutores argumentam que Gilmar pode ter infringido a Loman, que veda que magistrados se manifestem sobre processos pendentes de julgamento ou façam juízo depreciativo sobre despachos, votos ou sentenças de órgãos judiciais, o que incluiria decisões de outros colegas.

Enquanto o desgaste com Mendonça escala, o decano sinalizou uma trégua com Fachin. Gilmar vinha descontente com o comportamento do presidente do STF, que não veio a público defender os pares das implicações do caso Master, defendeu o encerramento do inquérito das fake news e propôs um código de conduta para ministros.

O decano também enviou uma mensagem a Fachin cobrando o presidente da corte sobre o número de vezes em que ele havia paralisado julgamentos de relevância para a sociedade, como o da exploração mineral em terras indígenas. Pelo WhatsApp, Gilmar chegou a acusar Fachin de obstruir a pauta.

Não houve resposta por mensagem, mas ambos tiveram uma conversa ríspida no dia seguinte, na sala de lanches dos ministros. O presidente do STF acabou liberando para retomada de julgamento casos que ele próprio havia interrompido por pedido de destaque do plenário virtual.

Recentemente, entretanto, ambos fizeram gestos de paz. Fachin decidiu implementar um grupo de estudos para discutir uma ampla reforma no Judiciário e obteve sinais de receptividade de Gilmar. Foram nomeados como componentes juristas próximos ao decano, a Dino e a Moraes -um aceno por consenso em uma corte dividida.

Na semana passada, os respectivos aniversários de posse geraram afagos recíprocos em discursos no plenário. Houve também um sinal de união em torno das chamadas "pautas-bomba" aprovadas pelo Congresso Nacional. Gilmar sugeriu a Fachin uma súmula para disciplinar o tema, e o presidente do STF deu início imediato à tramitação.

Embora Gilmar tenha criticado o código de conduta também no programa Roda Viva, a avaliação da cúpula administrativa do STF a é de que as falas foram menos ácidas do que de costume e focaram mais no "timing" da proposta do que em uma discordância sobre o mérito das regras.

Apesar dos sinais mútuos, o acordo de paz entre Gilmar e Fachin é considerado temporário. Interlocutores dos dois ministros avaliam que o atrito entre eles deve voltar a se acirrar quando começar a avançar a proposta para implementar o código de conduta no Supremo. A ministra Cármen Lúcia, designada relatora do texto, deve entregar uma proposta de minuta depois das eleições.

Entenda em 5 pontos as controvérsias e lacunas em falas de Gilmar no Roda Viva

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Em entrevista ao programa Roda Viva, na segunda-feira (22), o ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) Gilmar Mendes fez críticas ao ministro André Mendonça, relator do caso Master, mostrou sua insatisfação com o presidente da corte, Edson Fachin, pela maneira que vem conduzindo o debate sobre um código de ética do Supremo e foi questionado sobre transparência de rendimentos de magistrados.

Em alguns momentos, Gilmar se esquivou de respostas. Também emitiu suas opiniões sobre casos em andamento, o que, em tese, é vedado pela Loman (Lei Orgânica da Magistratura).

Veja abaixo pontos polêmicos da entrevista:
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'ERRO CRASSO' DE MENDONÇA
"Na conversa que nós tivemos, por exemplo, André Mendonça disse que tinha recebido um advogado fazendo proposta de delação seletiva. E aqui já há uma impropriedade. Por quê? A lei não permite que o relator ou o juiz participe da delação. O acordo é entre Ministério Público ou a Polícia Federal e o delator. Então, aqui, já há algo de erro crasso"
Gilmar Mendes
em entrevista ao Roda Viva de segunda (22)

Na conversa que nós tivemos, por exemplo, André Mendonça disse que tinha recebido um advogado fazendo proposta de delação seletiva. E aqui já há uma impropriedade. Por quê? A lei não permite que o relator ou o juiz participe da delação. O acordo é entre Ministério Público ou a Polícia Federal e o delator. Então, aqui, já há algo de erro crasso
em entrevista ao Roda Viva de segunda (22)
O ministro fez críticas sobre situação que pode ter que se debruçar como integrante da Segunda Turma, onde tramita o caso do Master.

Gilmar foi questionado se Alexandre de Moraes, relator do caso da trama golpista no STF, não haveria incorrido no mesmo erro ao discutir a delação do tenente-coronel Mauro Cid, ex-ajudante de ordem de Jair Bolsonaro (PL).

A ausência de declarações sobre o caso da tentativa de golpe de Estado se justifica, segundo o decano, porque ele não participou especificamente desse julgamento. A revisão criminal do caso, entretanto, deve ser julgada obrigatoriamente pela Segunda Turma do Supremo, da qual Gilmar faz parte.

A ação foi proposta em maio pela defesa de Bolsonaro. A PGR (Procuradoria-Geral da República) se manifestou contra anulação da condenação, e o relator Kassio Nunes Marques já pode pedir a inclusão do caso na pauta.

BANCO MASTER E LAVA JATO
"De Toffoli passa para Mendonça. Em seguida, o ministro André [Mendonça] libera uma ordem que havia sido dada pelo então relator no sentido de não permitir que a CPI [do INSS] fizesse aquela quebra de sigilo. E houve aquilo que nós e conhecemos, a quebra de sigilo, inclusive de conversas íntimas e a revelação. [...] Muitos vazamentos, prisões de familiares, são elementos que levam a pelo menos uma preocupação e similitudes com o que ocorreu anteriormente"
Gilmar Mendes
em entrevista ao Roda Viva na segunda (22)

De Toffoli passa para Mendonça. Em seguida, o ministro André [Mendonça] libera uma ordem que havia sido dada pelo então relator no sentido de não permitir que a CPI [do INSS] fizesse aquela quebra de sigilo. E houve aquilo que nós e conhecemos, a quebra de sigilo, inclusive de conversas íntimas e a revelação. [...] Muitos vazamentos, prisões de familiares, são elementos que levam a pelo menos uma preocupação e similitudes com o que ocorreu anteriormente
em entrevista ao Roda Viva na segunda (22)
Ao comparar o caso Master à Lava Jato, o ministro citou o vazamento de mensagens pessoais. No caso das comunicações do banqueiro Daniel Vorcaro, a divulgação pública aconteceu depois que a Polícia Federal enviou os conteúdos à CPI do INSS, com autorização de Mendonça. As mensagens incluíam conversas íntimas entre o ex-dono Master e sua então noiva Martha Graeff.

Na Lava Jato, um dos episódios mais emblemáticos envolveu a divulgação de escutas telefônicas de conversas entre a então presidente Dilma Rousseff e o hoje presidente Lula (PT), em 2016.

Lula, na época, foi impedido de tomar posse na Casa Civil por decisão de Gilmar, que citou os diálogos com a então presidente como argumento para a tese de "desvio de finalidade" na nomeação.

"Eu ainda me lembro dizendo: 'nós temos um encontro marcado com as prisões alongadas de Curitiba'. Parecia um mantra. Vocês vão de se lembrar. E depois isso se tornou verdade"
em entrevista ao Roda Viva na segunda (22)
Na entrevista desta segunda, Gilmar lembrou votos seus contrários à operação. Em 2015, no entanto, o ministro defendeu que a investigação estragou o "plano perfeito" do PT para se "eternizar no poder". Ele acabou se tornando crítico da Lava Jato posteriormente -chama hoje de "maior escândalo judicial do mundo".

IMPOSTO DE RENDA E AGENDA
Toda renda que algum ministro auferir, que normalmente é palestra, certamente está declarada no Imposto de Renda. Todo ano, todos fazem declarações de evolução patrimonial. Isso é obrigatório. Isso está na lei
em entrevista ao Roda Vivda na segunda (22)
Ao ser questionado sobre a implantação de medidas de transparência no STF, o decano da corte afirmou, como argumento, que os ministros já são obrigados a declaração de renda à Receita Federal. A informação, entretanto, não é pública.

"Poxa vida, olha, todo mundo que foi ao Fórum de Lisboa me encontrou lá. E certamente eu não era lá que eu ia me esconder"
em entrevista ao Roda Viva na segunda (22)
Sobre a divulgação pública de sua agenda e de patrocínios a eventos e viagens de ministros, Gilmar desconversou. Em 2026, o Fórum de Lisboa, organizado pelo ministro e apelidado de "Gilmarpalooza", aconteceu no início deste mês. O decano não divulgou seus compromissos durante o período.

MANIFESTAÇÃO SOBRE PROCESSOS
"Nós tivemos cinco ou seis aprovações de medidas, agora recentemente no Congresso Nacional, de piso salarial, de responsabilização de estados e municípios pelo pagamento, na Câmara, no Senado, que contradizem a jurisprudência pacífica do Supremo Tribunal Federal"
Gilmar Mendes
em entrevista ao Roda Viva (22)

Nós tivemos cinco ou seis aprovações de medidas, agora recentemente no Congresso Nacional, de piso salarial, de responsabilização de estados e municípios pelo pagamento, na Câmara, no Senado, que contradizem a jurisprudência pacífica do Supremo Tribunal Federal
em entrevista ao Roda Viva (22)
Gilmar foi questionado por manifestações em redes sociais sobre votações no Congresso de temas que podem chegar ao STF. Além disso, na própria entrevista, ele já havia feito críticas à condução do caso Master por Mendonça.

A Lei Orgânica da Magistratura estabelece que é vedado ao juiz "manifestar, por qualquer meio de comunicação, opinião sobre processo pendente de julgamento". Segundo a legislação, ponderações devem ser feitas nos autos ou em obras técnicas.

"Lá no código alemão [de conduta] dizia-se que o juiz não pode se pronunciar sobre questões que eventualmente se possa [ter que] se pronunciar também judicialmente. Nós temos isso também na nossa Loman", disse Gilmar.

Posteriormente ele justificou: "Só que eu acho que, em situações como tais, tivemos cinco ou seis aprovações de medidas no Congresso Nacional de piso salarial, de responsabilização de estados e municípios pelo pagamento, já na Câmara, já no Senado, que contrariam a jurisprudência pacífica do Supremo."
"A mim me parece que eu cumpri simplesmente um papel de juiz constitucional, alertando os legisladores."

'TIMING' DO CÓDIGO DE ÉTICA
"Não é um bom momento sabe por quê? Por uma razão simples: não se aprova [o código de ética] nessas circunstâncias. A gente pode ter as ideias mais interessantes e elaboradas para as finalidades mais diversas. Agora, se eu quero aprovar, eu preciso unir. [...] Obviamente que isso não ia reunir o colegiado, não ia reunir votos"
Gilmar Mendes
em entrevista ao Roda Viva na segunda (22)

Não é um bom momento sabe por quê? Por uma razão simples: não se aprova [o código de ética] nessas circunstâncias. A gente pode ter as ideias mais interessantes e elaboradas para as finalidades mais diversas. Agora, se eu quero aprovar, eu preciso unir. [...] Obviamente que isso não ia reunir o colegiado, não ia reunir votos
em entrevista ao Roda Viva na segunda (22)
Bandeira da gestão do presidente do STF, o "código de ética do Fachin", como chamou Gilmar, foi proposto em um momento errado. Segundo ele, o contexto das revelações de que os ministros Dias Toffoli e Alexandre de Moraes tinham conexões com o banqueiro Daniel Vorcaro tornaria a aprovação difícil.

A proposta por normas de conduta para membros do Supremo tinha sido defendida por Fachin antes da divulgação do contrato de Viviane Barci de Moraes com o Master, em dezembro passado, e das transações da família Dias Toffoli com a teia do Master, em janeiro.

A nomeação da ministra Cármen Lúcia como relatora da proposta aconteceu depois, em fevereiro deste ano.

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