Ativista indígena também comenta sobre exposição 'Paiter Suruí: Gente de Verdade', em cartaz em SP
Por ana Carolina Vasconcelos e lucas Salum - Bdf - 28/08/2025 16:43:44 | Foto: Txai foi a primeira indígena brasileira a discursar em uma Conferência da ONU sobre Mudanças Climáticas, em 2021 - Fernando Frazão/Agência Brasil
Está em exibição até o dia 2 de novembro, em São Paulo, no Instituto Moreira Salles (IMS), a exposição Paiter Suruí: Gente de Verdade . São mais de 900 fotografias que narram a história desse povo, que vive majoritariamente em Rondônia, mas também em outras regiões amazônicas.
Txai Suruí, liderança indígena e uma das organizadoras da exposição, destaca que, na verdade, as imagens simbolizam um grande álbum de família e demonstram como é diferente quando os próprios povos tradicionais contam a sua própria história.
“As fotos contam parte da história do nosso estado, Rondônia, parte da história do Brasil, e o outro lado da colonização, mas também como nós, Paiter Suruí, nos vemos e entendemos. Por muito tempo, a história foi contada pelo olhar do outro. Nunca pelo nosso olhar. A partir das fotos também temos outro olhar sobre os povos indígenas. Nossa exposição é diferente de outras sobre povos indígenas em museus”, explica, em entrevista ao programa Conversa Bem Viver , da Rádio Brasil de Fato.
Txai foi a primeira indígena brasileira a discursar em uma Conferência da ONU sobre Mudanças Climáticas, em 2021. Às vésperas do início da COP 30 em Belém, ela conta quais são as expectativas.
“Muitas vezes, é difícil acreditar em soluções nesse contexto tão difícil, mas a COP na Amazônia será histórica. Precisamos implementar, de fato, o que já sabemos que precisa ser feito. Todos sabem que as emergências climáticas são reais. E sabemos o que fazer, já existiam metas que não foram cumpridas. O que falta então? Mas eu espero bons resultados dessa COP, porque é na dificuldade que, às vezes, conseguimos algo”, avalia.
Confira a entrevista completa:
Brasil de Fato – Sobre o que trata a exposição?
Txai Suruí – Essa exposição surgiu há muito tempo, com uma bolsa que recebemos do IMS e da revista Zoom. Começamos a montar esse acervo fotográfico em várias casas e aldeias, coletando imagens desde a época do contato, quando chegaram as primeiras câmeras trazidas por missionários e antropólogos, que nos deixaram câmeras e começamos a fotografar.
No início, acreditava-se que a fotografia roubava a alma das pessoas, reduzindo sua vida. Hoje, a câmera se tornou um instrumento de luta, para mostrarmos quem somos.
As fotos contam parte da história do nosso estado, Rondônia, parte da história do Brasil, e o outro lado da colonização, mas também como nós, Paiter Suruí, nos vemos e entendemos. Por muito tempo, a história foi contada pelo olhar do outro. Nunca pelo nosso olhar.
A partir das fotos também temos um outro olhar sobre os povos indígenas. Nossa exposição é diferente de outras sobre povos indígenas em museus. É muito mais pessoal, como um grande álbum de família, que busca se aproximar de quem está olhando. Em muitas exposições tradicionais, o indígena é mostrado de forma estereotipada, sem nome, como algo distante e exótico. Na nossa, há riso, brincadeiras, movimento e intimidade. Isso muda completamente a perspectiva. É outra forma de ver a fotografia. Tem uma foto em que estão olhando para a parede, em vez de olhar para a câmera, porque havia ali o desenho de uma cachoeira.
É muito diferente quando a gente conta a nossa própria história.
Apesar dos avanços após a Constituição de 1988, ainda vemos muito estereótipo em relação às pessoas indígenas. Como a exposição mostra a necessidade de descolonizar nosso olhar?
A mostra também traz imagens atuais. Meu primo Biratan, primeiro fotógrafo profissional do nosso povo, foi essencial para essa exposição. Também buscamos resgatar registros antigos feitos por missionários e antropólogos. Parte desse material ficou com a Pontifícia Universidade Católica (PUC) Goiás, que as preservou. Antigamente, as pessoas entravam e fotografavam sem autorização, mas hoje não é mais assim. E a PUC sempre foi solícita, porque entendia a situação. Pedimos a devolução, porque essas fotos também fazem parte do nosso álbum de família. Hoje, conseguimos resgatar muitas e mostrar aos mais velhos, que recontaram histórias a partir delas. Tinham fotos muito antigas e sensíveis. Todas já haviam sido digitalizadas pela PUC.
Foi emocionante mostrar as fotos, porque muitos lembraram pessoas e histórias. É importante não só para apoiadores externos, mas para os próprios Paiter Suruí conhecerem sua história, entenderem como foi o contato — momento muito difícil para o nosso povo que foi quase dizimado — mas também saberem como resistimos e nos tornamos resilientes. Hoje somos referência em projetos de reflorestamento, restauração e proteção ambiental com tecnologia.
A diferença entre as terras indígenas dos Paiter Suruí, em termos de recuperação ambiental, e as dos vizinhos é visível em imagens de satélite. Como é a relação com os fazendeiros vizinhos, que muitas vezes têm visões de mundo antagônicas?
É muito difícil. Tentamos dialogar e explicar a importância de cuidar da natureza no momento em que vivemos, mas enfrentamos problemas graves, principalmente o garimpo ilegal. Fizemos um relatório com a Fiocruz [Fundação Oswaldo Cruz] mostrando o impacto das mudanças climáticas sobre os povos indígenas, que mostra as consequências do garimpo para o nosso povo.
Em algumas aldeias onde aconteceu a pesquisa, 100% das pessoas estavam contaminadas, em níveis prejudiciais à saúde. Essa exposição também é para chamar a atenção para isso e permitir que as pessoas vejam as consequências. Nós já reflorestamos mais de um milhão de árvores, é uma ilha de floresta, mas ainda vivemos nessa situação. Não queremos que chegue em uma situação como a que chegou a dos Yanomami. O relatório é um alerta para isso.
O garimpo traz violência, impacto na saúde, prejudica a biodiversidade, conflito interno, destruição ambiental, envenenamento dos rios, e não representa emprego para o nosso povo. Apenas 10% dos Paiter Suruí já trabalharam nisso. A maioria se dedica à agricultura familiar e a tradições próprias. Não queremos esse modelo. E muitos outros povos também não querem. Na exposição também mostramos soluções, falamos de mudanças climáticas antes mesmo de isso ser comum.
Você foi a primeira mulher indígena brasileira a discursar em uma conferência da ONU sobre o clima, na COP 26. Agora estamos às vésperas da COP 30, pela primeira vez no Brasil, em Belém. Você está mais esperançosa?
Mais esperançosa, eu não sei. Mas não podemos desacreditar. Em 2021, quando fiz a fala na COP, vivíamos um momento muito difícil, com retrocessos políticos e assassinatos de lideranças. Eu falei sobre a importância de ouvir a floresta e de estarmos nas mesas de decisões.
De lá para cá, o cenário mundial piorou, com guerras, o governo [de Donald] Trump], dos Estados Unidos, que quer explorar petróleo, e no Brasil, o Congresso defendendo o marco temporal e retrocessos ambientais, como o PL [Projeto de Lei] da Devastação. Muitas vezes, é difícil acreditar em soluções nesse contexto tão difícil, mas a COP na Amazônia será histórica. Vai ser histórica porque será na Amazônia e isso tem sim um peso, apesar das dificuldades. Será em um país democrático, com grande participação da sociedade civil, apesar de sempre ter sido difícil para nós acessarmos esses espaços.
Precisamos implementar de fato o que já sabemos que precisa ser feito. Todos sabem que não dá para negar o que está acontecendo no mundo e que as emergências climáticas são reais. Está tendo enchentes, secas, queimadas. E sabemos o que fazer, já existiam metas que não foram cumpridas. O que falta então? É a ganância? Mas eu espero bons resultados dessa COP, porque é na dificuldade que, às vezes, conseguimos algo.
Como sociedade, temos que fazer pressão e cobrar, não só na COP, mas também nas eleições. Temos que cobrar governantes, Congresso, empresas e também rever nosso consumo. O mundo precisa passar por uma transformação na forma como tratamos o nosso planeta. Já passamos do 1,5ºC global, o que significa 5ºC a mais em Rondônia, por exemplo.
Conversa Bem Viver
Em diferentes horários, de segunda a sexta-feira, o programa é transmitido na Rádio Super de Sorocaba (SP); Rádio Palermo (SP); Rádio Cantareira (SP); Rádio Interativa, de Senador Alexandre Costa (MA); Rádio Comunitária Malhada do Jatobá, de São João do Piauí (PI); Rádio Terra Livre (MST), de Abelardo Luz (SC); Rádio Timbira, de São Luís (MA); Rádio Terra Livre de Hulha Negra (RN), Rádio Camponesa, em Itapeva (SP), Rádio Onda FM, de Novo Cruzeiro (MG), Rádio Pife, de Brasília (DF), Rádio Cidade, de João Pessoa (PB), Rádio Palermo (SP), Rádio Torres Cidade (RS); Rádio Cantareira (SP); Rádio Keraz; Web Rádio Studio F; Rádio Seguros MA; Rádio Iguaçu FM; Rádio Unidade Digital ; Rádio Cidade Classic HIts; Playlisten; Rádio Cidade; Web Rádio Apocalipse; Rádio; Alternativa Sul FM; Alberto dos Anjos; Rádio Voz da Cidade; Rádio Nativa FM; Rádio News 77; Web Rádio Líder Baixio; Rádio Super Nova; Rádio Ribeirinha Libertadora; Uruguaiana FM; Serra Azul FM; Folha 390; Rádio Chapada FM; Rbn; Web Rádio Mombassom; Fogão 24 Horas; Web Rádio Brisa; Rádio Palermo; Rádio Web Estação Mirim; Rádio Líder; Nova Geração; Ana Terra FM; Rádio Metropolitana de Piracicaba; Rádio Alternativa FM; Rádio Web Torres Cidade; Objetiva Cast; DMnews Web Rádio; Criativa Web Rádio; Rádio Notícias; Topmix Digital MS; Rádio Oriental Sul; Mogiana Web; Rádio Atalaia FM Rio; Rádio Vila Mix; Web Rádio Palmeira; Web Rádio Travessia; Rádio Millennium; Rádio EsportesNet; Rádio Altura FM; Web Rádio Cidade; Rádio Viva a Vida; Rádio Regional Vale FM; Rádio Gerasom; Coruja Web; Vale do Tempo; Servo do Rei; Rádio Best Sound; Rádio Lagoa Azul; Rádio Show Livre; Web Rádio Sintonizando os Corações; Rádio Campos Belos; Rádio Mundial; Clic Rádio Porto Alegre; Web Rádio Rosana; Rádio Cidade Light; União FM; Rádio Araras FM; Rádios Educadora e Transamérica; Rádio Jerônimo; Web Rádio Imaculado Coração; Rede Líder Web; Rádio Club; Rede dos Trabalhadores; Angelu’Song; Web Rádio Nacional; Rádio SINTSEPANSA; Luz News; Montanha Rádio; Rede Vida Brasil; Rádio Broto FM; Rádio Campestre; Rádio Profética Gospel; Chip i7 FM; Rádio Breganejo; Rádio Web Live; Ldnews; Rádio Clube Campos Novos; Rádio Terra Viva; Rádio interativa; Cristofm.net; Rádio Master Net; Rádio Barreto Web; Radio RockChat; Rádio Happiness; Mex FM; Voadeira Rádio Web; Lully FM; Web Rádionin; Rádio Interação; Web Rádio Engeforest; Web Rádio Pentecoste; Web Rádio Liverock; Web Rádio Fatos; Rádio Augusto Barbosa Online; Super FM; Rádio Interação Arcoverde; Rádio; Independência Recife; Rádio Cidadania FM; Web Rádio 102; Web Rádio Fonte da Vida; Rádio Web Studio P; São José Web Rádio – Prados (MG); Webrádio Cultura de Santa Maria; Web Rádio Universo Livre; Rádio Villa; Rádio Farol FM; Viva FM; Rádio Interativa de Jequitinhonha; Estilo – WebRádio; Rede Nova Sat FM; Rádio Comunitária Impacto 87,9FM; Web Rádio DNA Brasil; Nova onda FM; Cabn; Leal FM; Rádio Itapetininga; Rádio Vidas; Primeflashits; Rádio Deus Vivo; Rádio Cuieiras FM; Rádio Comunitária Tupancy; Sete News; Moreno Rádio Web; Rádio Web Esperança; Vila Boa FM; Novataweb; Rural FM Web; Bela Vista Web; Rádio Senzala; Rádio Pagu; Rádio Santidade; M’ysa; Criativa FM de Capitólio; Rádio Nordeste da Bahia; Rádio Central; Rádio VHV; Cultura1 Web Rádio; Rádio da Rua; Web Music; Piedade FM; Rádio 94 FM Itararé; Rádio Luna Rio; Mar Azul FM; Rádio Web Piauí; Savic; Web Rádio Link; EG Link; Web Rádio Brasil Sertaneja; Web Rádio Sindviarios/CUT.
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Editado por: Monyse Ravena
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