A opinião pessoal do colunista de politica nacional João Zisman: Depois do barulho

O primeiro debate expôs fragilidades, colocou problemas reais sobre a mesa e mostrou que a campanha ainda precisa avançar da crítica previsível para a explicação possível

A opinião pessoal do colunista de  politica nacional João Zisman: Depois do barulho
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Por João Zisman - 10/08/2026 08:58:51 | Foto: JOSÉ CRUZ/AGÊNCIA BRASIL

Debates eleitorais têm uma característica curiosa: durante algumas horas, candidatos que discordam de quase tudo conseguem chegar a um consenso sobre os problemas de quem está governando. Foi assim no primeiro encontro entre os postulantes ao Governo do Distrito Federal, no qual saúde, educação, BRB, segurança e mobilidade dividiram espaço com uma artilharia bastante previsível contra Celina Leão.

A governadora sabia o que encontraria e compareceu. Liderando as pesquisas e carregando as vantagens e os problemas de quem ocupa o Palácio do Buriti, poderia ter recorrido ao cálculo bastante conhecido de preservar-se enquanto os adversários discutiam entre si. Preferiu enfrentar cinco candidatos que tinham poucos motivos para desperdiçar munição uns com os outros enquanto havia uma governadora candidata diante deles. A decisão merece registro, embora presença em debate não conceda salvo-conduto para respostas pouco convincentes.

O BRB tratou de demonstrar isso. Ao procurar estabelecer limites entre sua responsabilidade e decisões tomadas durante o governo de Ibaneis Rocha, Celina entrou numa área que provavelmente voltará a visitá-la durante a campanha. Foram três anos como vice-governadora antes de assumir o comando do DF, vínculo político suficientemente próximo para tornar qualquer tentativa de separação um exercício delicado. Heranças políticas têm uma inconveniência danada: os ativos e os passivos costumam chegar no mesmo inventário.

Os adversários perceberam a oportunidade e fizeram aquilo que se esperava deles. A dificuldade surgiu na repetição. Depois que uma fragilidade está exposta, insistir sobre ela acrescenta cada vez menos ao debate e começa a consumir o tempo que poderia ser utilizado para demonstrar capacidade de oferecer uma alternativa. Em alguns momentos, houve tamanho empenho em provar que Celina tem problemas para administrar que ficou faltando explicar por que os demais estariam mais preparados para administrá-los.

Foi justamente nos momentos em que essa lógica foi rompida que o debate melhorou. Tarifa zero, expansão do metrô, resultados da educação, funcionamento da saúde e futuro do BRB permitiram enxergar diferenças que vão além das biografias e dos ataques. São temas concretos, que obrigam candidatos a entrar no terreno sempre mais desconfortável da execução.

A saúde oferece o melhor exemplo. Pesquisa divulgada nesta segunda-feira mostra que 82,3% dos entrevistados a colocam entre as principais prioridades para o próximo governo. Quem enfrenta uma fila para consulta, exame ou cirurgia dificilmente precisa que um candidato lhe revele a existência do problema. A informação que interessa começa exatamente depois do diagnóstico: quantos profissionais serão necessários, onde estão os gargalos, quanto custará enfrentá-los, de onde virão os recursos e em quanto tempo alguma diferença poderá ser percebida.

É nesse terreno que a vantagem circunstancial entre situação e oposição diminui. Celina terá de explicar por que determinados problemas continuam existindo depois de anos de uma administração da qual participou desde o início. Seus adversários terão de demonstrar que as soluções apresentadas resistem ao orçamento, à burocracia e à realidade de uma máquina pública muito mais complicada do que permite sugerir um minuto diante das câmeras.

O primeiro debate cumpriu, portanto, uma função importante ao colocar vulnerabilidades e algumas alternativas diante do eleitor. Também deixou evidente o espaço que ainda existe para melhorar o nível da campanha. Os problemas do Distrito Federal já são suficientemente conhecidos e não precisam ser redescobertos a cada bloco de televisão.

Nos próximos encontros, o eleitor talvez queira descobrir algo bem mais difícil: quem sabe o que fazer com eles.

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