Era 1954 e Assis Chateaubriand, o Chatô, precisava se reeleger senador
Por João Zisman - 08/08/2026 09:02:10 | Foto:
À primeira vista, não parecia uma tarefa complicada. Chatô era dono dos Diários Associados, o maior conglomerado de comunicação da América Latina. Tinha jornais, rádios, revistas e a primeira televisão do país. Quando ele falava, o Brasil ouvia, porque era dono de boa parte dos microfones.
Para garantir o segundo mandato, decidiu reforçar o palanque com o maior nome popular do Nordeste.
Luiz Gonzaga.
O Rei do Baião aceitou o convite. Não era homem de um partido só. Cantava para quem o contratasse, fosse Getúlio, Lacerda ou qualquer outro. Mas ter Luiz Gonzaga num comício era um acontecimento. Antes mesmo de começar a campanha, a sanfona já fazia o serviço de encher a praça.
A fotografia daquele dia registra exatamente essa cena. Gonzaga aparece sorridente, sanfona a tiracolo, cercado pelos principais caciques políticos da Paraíba e cantando para uma multidão que Chatô tinha certeza de que também seria sua nas urnas.
Do outro lado estavam dois candidatos que quase ninguém enxergava como ameaça.
Um era João Arruda, um grande produtor de algodão, conhecido no sertão, mas praticamente anônimo para o restante do estado. Em vez de disputar a capital, concentrou a campanha no interior, onde conhecia o eleitor pelo nome.
O outro era Argemiro de Figueiredo. Ex-governador da Paraíba, fundador da UDN no estado e um político que parecia ter ficado no passado. Depois de derrotas sucessivas, muita gente acreditava que sua carreira havia chegado ao fim.
Veio a apuração.
E a urna resolveu contrariar todas as expectativas.
João Arruda terminou em primeiro lugar com pouco mais de 110 mil votos. Argemiro de Figueiredo veio logo atrás, com 109.416. Assis Chateaubriand ficou em terceiro, com 103.713 votos.
Naquele ano, a Paraíba elegia dois senadores.
Nenhum deles era o homem que controlava o maior império de comunicação do país.
Mas a história ainda guardava um último capítulo.
Argemiro também disputava uma vaga de deputado federal. Naquele tempo, a legislação permitia candidaturas para cargos diferentes na mesma eleição.
E ele venceu as duas.
Como não podia exercer os dois mandatos, escolheu o Senado e deixou a cadeira na Câmara para o suplente.
Assis Chateaubriand, o homem que tinha jornais, rádios, televisão e o maior cantor popular do Brasil em seu palanque, saiu da eleição sem mandato.
Argemiro de Figueiredo, que muitos julgavam politicamente acabado, saiu dela eleito duas vezes e ainda teve o luxo de escolher qual cargo ocupar.
Os personagens mudam. As campanhas se modernizam. As ferramentas ficam cada vez mais sofisticadas.
Mas a política brasileira continua lembrando que dinheiro compra estrutura, fama enche praça e poder ajuda a construir palanques.
A urna, porém, sempre preservou um hábito antigo: decidir por conta própria.
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