Há uma diferença importante entre cumprir os prazos e aproveitar os prazos. A legislação eleitoral preocupa-se com a primeira hipótese. A política costuma ser julgada pela segunda
Por João Zisman - 29/07/2026 08:33:53 | Foto: WILSON DIAS/AGÊNCIA BRASIL
O calendário continua sob controle. As convenções caminham para o encerramento dentro das datas previstas, os registros de candidatura serão formalizados no momento oportuno e, sob o aspecto jurídico, nada indica qualquer anormalidade. Ainda assim, permanece a sensação de que o processo sucessório do Distrito Federal continua mais lento do que poderia.
Talvez essa percepção decorra menos da ausência de definições e mais da ausência de sinais claros. A política produz expectativas tanto quanto produz fatos. Quando as mensagens emitidas pelos partidos deixam margem para interpretações distintas, o ambiente naturalmente passa a ser ocupado por especulações, leituras divergentes e ansiedade.
O MDB talvez seja hoje o melhor exemplo dessa circunstância. Não porque tenha deixado de participar das conversas ou porque esteja alheio às articulações, mas porque continua ocupando uma posição decisiva sem que sua estratégia seja plenamente compreendida por quem está fora das mesas de negociação. Entre o silêncio estratégico e a indefinição existe uma linha muito tênue. Nem sempre quem observa de fora consegue distinguir uma situação da outra.
Esse aspecto ganha importância porque a eleição majoritária costuma monopolizar a atenção do noticiário, enquanto as eleições proporcionais obedecem a uma lógica completamente diferente. Deputados distritais e federais dependem de organização, previsibilidade e tempo para estruturar suas campanhas. A montagem de uma nominata não se resolve apenas no dia da convenção. Ela exige segurança para quem pretende disputar uma vaga e precisa construir alianças regionais, definir equipes, organizar agendas e estabelecer uma narrativa eleitoral.
É justamente nesse ponto que o relógio político parece correr em velocidade diferente do relógio administrativo. Enquanto os partidos ainda concluem suas equações internas, a cidade continua funcionando. O Governo anuncia vagas de emprego, executa políticas públicas, encaminha o planejamento orçamentário, amplia ações sociais e mantém a rotina da administração. São agendas que não aguardam o encerramento das convenções para acontecer.
Talvez seja cedo para afirmar que essa diferença de ritmo produzirá efeitos eleitorais. Também seria precipitado concluir que ela representa vantagem ou desvantagem para qualquer grupo político. O que já é possível perceber, entretanto, é que o tempo passou a desempenhar um papel mais complexo na política contemporânea. Ele deixou de ser apenas um prazo legal para se transformar também em elemento de comunicação.
Em outros momentos da história política do Distrito Federal, bastava que as decisões fossem tomadas dentro do calendário. Hoje, talvez seja igualmente importante que elas sejam compreendidas pela sociedade enquanto ainda há tempo para produzir seus efeitos.
É uma diferença sutil, mas que pode ajudar a explicar por que, mesmo com o calendário rigorosamente em dia, a sucessão de 2026 ainda transmite a impressão de que algumas peças permanecem fora do lugar.
João Zisman
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