Não é uma pergunta simples. Talvez nem exista uma resposta pronta para ela. Mas alguns fatos do noticiário desta quinta-feira sugerem que vale a pena formulá-la
Por João Zisman - 30/07/2026 17:15:12 | Foto: JOSE CRUZ/AGÊNCIA BRASIL
A divulgação da Pesquisa Anual do Comércio mostrou que as empresas do Distrito Federal movimentaram R$ 132,2 bilhões em 2024. Ao mesmo tempo, o Capital Moto Week transforma a Granja do Torto em uma pequena cidade, mobilizando hotéis, bares, restaurantes, transporte por aplicativo, comércio, serviços temporários e uma cadeia econômica que ultrapassa há muito tempo os limites do próprio evento. As Agências do Trabalhador continuam oferecendo centenas de vagas diariamente e a economia de serviços mantém um dinamismo que dificilmente pode ser explicado apenas pela presença da administração pública.
Durante décadas, tornou-se quase um reflexo associar a economia do Distrito Federal ao funcionalismo público. A presença da União, dos Poderes da República e das estruturas administrativas sempre justificou essa leitura. Ela continua sendo verdadeira, mas talvez tenha deixado de ser suficiente.
Brasília parece ter construído, quase silenciosamente, uma segunda economia. Não substituiu a primeira, evidentemente, mas passou a conviver com ela. É uma economia que nasce do turismo de eventos, do comércio, da gastronomia, da tecnologia, da saúde privada, da educação, da logística e de uma ampla rede de serviços que cresce impulsionada por um mercado consumidor cada vez mais complexo.
Curiosamente, essa transformação aparece com muito mais nitidez nos indicadores econômicos do que no discurso político. Quando se ouvem candidatos, partidos ou mesmo entidades representativas, a impressão é de que o debate continua orbitando quase exclusivamente em torno do Estado, do funcionalismo e do orçamento público, como se esses elementos ainda fossem capazes de explicar, sozinhos, a dinâmica econômica do Distrito Federal.
Talvez isso ajude a compreender por que determinadas agendas parecem dialogar pouco com uma parcela crescente da sociedade. Quem administra um restaurante, desenvolve software, organiza eventos, trabalha na economia criativa, opera uma empresa de logística ou presta serviços especializados provavelmente enxerga a cidade a partir de referências diferentes daquelas que predominavam há vinte ou trinta anos.
Essa talvez seja uma das perguntas que os candidatos ao Palácio do Buriti precisarão responder durante a campanha. Não basta reconhecer que a economia do Distrito Federal se tornou mais diversificada. Será preciso demonstrar que essa transformação foi compreendida e incorporada às propostas de governo. Afinal, uma cidade que gera riqueza por caminhos diferentes tende a formular demandas diferentes.
Não se trata de afirmar que Brasília deixou de depender do setor público. Essa seria uma conclusão apressada. Também não parece correto sugerir que a economia privada assumiu protagonismo absoluto. O mais provável é que o Distrito Federal esteja vivendo um processo de diversificação que ainda não foi completamente assimilado pelo ambiente político.
Talvez a pergunta inicial permaneça sem resposta ao longo desta campanha. Mas isso não diminui sua importância. Ao contrário. Se ela continuar fazendo sentido daqui a alguns meses, talvez ajude a explicar por que determinados discursos encontraram dificuldade para dialogar com um Distrito Federal que, silenciosamente, passou a ser maior e mais complexo do que a imagem construída sobre ele.
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