Deputado italiano Angelo Bonelli questiona modo como Flávio Bolsonaro ganhou cidadania

Fuga de Flávio Bolsonaro vira guerra de versões

Deputado italiano Angelo Bonelli questiona modo como Flávio Bolsonaro ganhou cidadania
Deputado italiano Angelo Bonelli questiona modo como Flávio Bolsonaro ganhou cidadania

Michele Oliveira-milão, Itália (folhapress) - 29/10/2026 10:43:08 | Foto: O deputado italiano Angelo Bonelli, da Aliança dos Verdes e da Esquerda (AVS), voltou a questionar a cidadania italiana de políticos brasileiros | Foto: Reprodução Italianismo

O deputado italiano Angelo Bonelli apresentou um pedido formal de respostas ao governo italiano sobre o modo com que o senador Flávio Bolsonaro (PL) e os irmãos obtiveram a cidadania italiana. O senador usou o passaporte italiano para entrar na Argentina, uma das etapas de sua fuga até os Estados Unidos.

Entre parlamentares de oposição ao governo de Giorgia Meloni, existe há anos a suspeita de que os filhos do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) possam ter tido tratamento privilegiado na tramitação do pedido de reconhecimento da cidadania por descendência na Embaixada da Itália em Brasília.

O uso do passaporte italiano no roteiro de fuga de Flávio ganhou destaque na imprensa italiana, em um momento em que são debatidos os efeitos da lei que, no ano passado, restringiu o acesso à cidadania para descendentes nascidos fora do país europeu.

No documento apresentado na tarde desta quarta-feira (28), Bonelli pede explicações aos ministérios de Relações Exteriores e do Interior sobre as datas e a modalidade com que os irmãos Bolsonaro obtiveram a cidadania. Ainda não há prazo para a resposta do governo, que ocorrerá no plenário da Câmara.

Segundo informações fornecidas anteriormente pelo governo Meloni, Flávio e Eduardo fizeram pedido para entrar na lista de espera para o reconhecimento da cidadania em Brasília em 2020. Em 2022, nove dias depois das eleições em que Jair saiu derrotado, eles estiveram na embaixada italiana para dar início à tramitação do pedido.

No ano passado, em outro pedido de respostas apresentado por Bonelli, dessa vez no âmbito da fuga da ex-deputada Carla Zambelli (PL-SP), a subsecretária do Interior, Wanda Ferro, confirmou que Flávio e Eduardo obtiveram a cidadania em 2023, enquanto o documento de Carlos foi liberado em 2024. Jair Bolsonaro não tinha até aquele momento a cidadania.

Com a cidadania certificada, é possível fazer o pedido de documentos de identificação, incluindo o passaporte.

Bonelli menciona na sua interpelação que, no período em que Flávio fez o pedido de cidadania, as solicitações apresentadas nos consulados italianos do Brasil chegavam a demorar cerca de dez anos para serem processadas. Isso devido ao grande volume de descendentes italianos no país e à alta no interesse em obter o documento.

"Parece necessário verificar se os filhos do ex-presidente Bolsonaro foram convocados respeitando a ordem cronológica da lista de espera ou se foram beneficiados por tratamento preferencial em relação aos demais requerentes", escreve Bonelli.

Ele faz uma lista de perguntas aos ministérios, que inclui datas exatas de inscrição na lista de espera, de convocação e apresentação de documentos, além da posição dos irmãos Bolsonaro em comparação a outros requerentes. O deputado questiona se o governo pretende abrir uma investigação para apurar o caso.

Bonelli cita que Flávio é alvo de investigações no Brasil e lembra que Zambelli também usou o passaporte italiano em sua fuga. "O caso da ex-deputada, que depois da sua condenação no Brasil declarou que se sentia 'intocável' na Itália graças ao passaporte italiano, demonstra o risco de a cidadania italiana ser usada para subtrair-se da justiça do próprio país", diz.

Entre os líderes da coalizão de direita no poder, o vice-premiê Matteo Salvini é o mais próximo da família Bolsonaro. Ele havia parabenizado o senador pelo primeiro lugar no primeiro turno. Na segunda-feira (26), Meloni parabenizou em nota o presidente Lula (PT) pela reeleição.

Flávio Bolsonaro usou passaporte italiano para entrar na Argentina e não passou por posto de controle brasileiro

JOSÉ MARQUES-BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) - O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) usou um passaporte italiano para entrar na Argentina na noite de terça-feira (27), antes de embarcar em um voo com sua família que tem como destino final Miami, nos Estados Unidos.

Flávio, sua esposa, Fernanda, e suas duas filhas entraram no país vizinho pela Ponte Internacional Tancredo Neves, na província de Misiones. As três apresentaram passaportes brasileiros.

Os quatro não passaram por nenhum posto de controle da PF ao deixarem o Brasil, já que não é cobrada a saída de brasileiros por fronteira seca.

No domingo (25), o ministro Alexandre de Moraes, do STF (Supremo Tribunal Federal), havia determinado que os passaportes brasileiros de Flávio fossem cancelados pela Polícia Federal.

Também decidiu que Flávio deveria entregar qualquer passaporte estrangeiro que tivesse, o que ele não fez. A polícia oficiou Moraes informando o descumprimento da ordem por parte do senador.

Não havia ordem judicial para prender Flávio ou determinar alguma medida similar contra ele, e a PF não estava monitorando o senador quando ele deixou sua residência em Brasília.

Comunicado da Direção Nacional de Migrações da Argentina disse que "às 22h50 do dia 27/10 ingressaram pelo passo fronteiriço da Ponte Internacional Tancredo Neves, na província de Misiones, os cidadãos Flavio Nantes Bolsonaro, Fernanda Antunes Figueira Bolsonaro, Carolina Figueira Bolsonaro e Luiza Figueira Bolsonaro, que o fizeram com documentação hábil de viagem sem nenhum impedimento legal para o ingresso no país. Os trânsitos foram registrados pela autoridade de aplicação sem incidentes".

O presidente Donald Trump afirmou na noite de terça que aprovaria a entrada nos Estados Unidos do senador, mas não sabia o paradeiro do aliado.

"Ouvi dizer que ele estava na Argentina, mas não sei onde está agora", declarou. "Mas eu certamente me aproximaria bastante dele."
Mais cedo, uma autoridade do Departamento de Estado confirmou à Folha de S.Paulo que o governo americano concederá vistos a Flávio e a seus familiares, autorizando a entrada e permanência nos Estados Unidos.

Fuga de Flávio Bolsonaro vira guerra de versões

IGOR GIELOW-SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - A fuga do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) do Brasil está imersa em uma guerra de contrainformação digna de roteiro de espionagem da Guerra Fria. Os cenários do episódio incluem conspiração internacional, despistes e falhas suspeitas de controle fronteiriço.

Nesta manhã de quarta-feira (28), aliados do candidato derrotado por Lula (PT) que relataram na véspera a viagem de Flávio aos Estados Unidos se dividiam entre os que alegavam ter ouvido uma mentira do núcleo familiar dos Bolsonaros e os que insistiam na versão.

Os que se diziam enganados podem, claro, fazer parte de uma armação conjunta para despistar o roteiro da fuga do senador. Dando-lhes o benefício da dúvida, sobram questionamentos acerca da sapiência da operação.

No cipoal de versões que ora emergem da Imigração argentina do aliado bolsonarista Javier Milei, ora de órgãos de mídia do país vizinho e do Brasil, Flávio e família atravessaram enfim a fronteira na noite de terça (27).

Se isso for verdade, a questão básica é: e a Polícia Federal? Quando a notícia da saída de Flávio começou a circular, na manhã da terça, a primeira providência alegada pela PF foi a de reforçar controles fronteiriços.

Se uma van branca com o senador, sua mulher e duas filhas atravessou realmente a ponte rumo a Puerto Iguazú à noite, pela lógica ou houve uma falha primária ou algum tipo de conivência, algo que apenas uma apuração poderá indicar. A PF diz que a praxe é deixar passar brasileiros por terra sem checagem, mas e o alerta anunciado?
Flávio também poderia já estar na cidade argentina, como uma TV local disse, e apenas teria se apresentado às autoridades de imigração? Essa hipótese pode ser explicada pelo vazamento à imprensa do vizinho da presença de um avião à sua disposição na cidade, adiando o que seria a fuga na noite de terça.

Mas se o plano de voo da empresa Baires Fly acabou retido pelas autoridades, com sua tripulação parada no aeroporto local, como que o avião foi liberado nesta quarta para Guayaquil (Equador), no caminho de Miami?
A rota em si faz sentido devido à necessária precaução de alguém que acabou de descumprir uma ordem do Supremo Tribunal Federal de evitar o espaço aéreo de seu próprio país.

Mas e se os bolsonaristas que sustentam que Flávio já viajou na terça estiverem certos? Aí as hipóteses envolvidas ganham tinta que remetem a "Argo", vencedor do Oscar de melhor filme de 2013.

A obra relata a extração de diplomatas americanos que haviam escapado ao cerco da embaixada dos EUA no Irã durante a eclosão da Revolução Islâmica de 1979. Eles deixam o país como integrantes de uma equipe de filmagem fictícia criada por Tony Mendez, chefe de disfarces da CIA por 25 anos.

Entre bolsonaristas e outros observadores, há uma conspiração internacional comandada pelo Departamento de Estado dos EUA, que por ora apenas confirma que concederá vistos para Flávio e família, e não o asilo político ventilado por seus aliados no país de Donald Trump.

Nesta visão, a fuga pode ter ocorrido pela Argentina e o corredor Andes-Caribe, pela Venezuela ora tornada um protetorado de Trump ou diretamente pelas mãos americanas, a hipótese que soa mais delirante.

O primeiro cenário precisaria contar com uma mentira do governo Milei e repetiria basicamente o que está sendo divulgado só nesta quarta.

O segundo, algum tipo de viagem de Flávio para a região amazônica e, de lá, aproveitando-se da baixa cobertura de radar local, um desvio rumo ao país de Delcy Rodríguez rumo a Miami. Neste caso, Flávio usaria as táticas dos traficantes de drogas que operam por lá e arriscaria uma interceptação pela Força Aérea.

Além desse perigo, a família em fuga precisaria se esconder, dado que é obrigatório entregar o manifesto de passageiros de um voo com seu plano de rota para voar no Brasil. Claro, hipoteticamente é também possível achar meios de burlar isso com o devido incentivo financeiro.

Como ensina Tony Mendez nas memórias "O Mestre dos Disfarces" (1999), as operações mais simples na aparência tendem a ser as mais bem-sucedidas quando o tema é retirar pessoas de um país.

Por fim, uma fuga com apoio direto americano. Como não houve um assalto aéreo a Brasília no estilo que sequestrou o antecessor de Delcy, Nicolás Maduro, e levou o ditador com sua mulher para a prisão nos EUA, restaria alguma operação disfarçada pela saída anunciada pela Argentina em curso nesta quarta.

A hipótese é fantasiosa e sugere uma intervenção direta americana, o que geraria uma crise -o próprio Trump, conhecido pelo pouco apego à verdade, tenta se distanciar do caso.

Mas o entorno da direita americana basicamente a celebrou: o advogado mexicano Simón Levy e o ex-estrategista de Trump Steve Bannon disseram na véspera que tudo era uma ação de Marco Rubio, o radical secretário de Estado americano.

Mesmo aliados de Flávio, como o sócio de seu irmão Eduardo Fábio Generoso, agradeceram Rubio pela "liberdade" concedida ao senador.

Quando e se a novela acabar, com uma declaração pública do candidato derrotado após sua fuga, um enredo será apresentado. A única certeza é que a dúvida sobre sua veracidade permanecerá.

Flávio Bolsonaro fugiu em jato de empresa citada em esquema de corrupção que derrubou aliado de Milei

ANA GABRIELA OLIVEIRA LIMA E PAULO RICARDO MARTINS-SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Depois de perder a eleição presidencial, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) fugiu do Brasil com a mulher e as duas filhas em um jato privado operado pela Baires Fly S.A., empresa citada em uma investigação sobre suspeita de lavagem de dinheiro envolvendo contratos públicos de medicamentos e insumos médicos na Argentina.

O suposto esquema de corrupção causou, em 2025, escândalo no governo de Javier Milei, presidente do país, e levou à demissão de Diego Spagnuolo, ex-diretor do órgão que já foi advogado e pessoa próxima do político.

A reportagem procurou a Baires Fly por meio do email disponibilizado para contato no site da companhia aérea, mas não obteve resposta até a publicação desta reportagem.

A saída de Flávio Bolsonaro do Brasil foi confirmada nesta quarta-feira (28) pela Direção Nacional de Migrações argentina. Segundo o órgão, o senador e familiares entraram no país por via terrestre, pela Ponte Internacional Tancredo Neves, às 22h50 de terça-feira (27).

Às 23h30, embarcaram em um voo privado operado pela Baires Fly com destino a Guayaquil, no Equador, conforme o plano de voo apresentado às autoridades. A aeronave utilizada é um Gulfstream G400, de matrícula LV-JQW. Depois da parada no Equador, o senador continuou a viagem até Miami, nos Estados Unidos.

A Baires Fly é citada em uma investigação judicial sobre suspeitas de corrupção e lavagem de dinheiro na Andis, agência argentina responsável por políticas destinadas às pessoas com deficiência.

O caso apura possíveis irregularidades em contratos públicos para aquisição de medicamentos e insumos. Segundo investigação das autoridades, empresas fornecedoras da agência transferiram recursos à Baires Fly, que posteriormente emitiu faturas por supostos serviços aeronáuticos. Os investigadores suspeitam que a documentação comercial tenha sido utilizada para dar aparência legítima às transferências.

Uma investigação judicial descrita pelo jornal argentino Infobae aponta o empresário Sergio Mastropietro, ligado à Baires Fly, como suspeito de participar da canalização de recursos de origem ilícita. O empresário teria fornecido dados bancários da companhia e, depois de receber transferências, emitido faturas da Baires Fly com valores correspondentes.

O suposto esquema de corrupção gerou escândalo, em 2025, no governo de Javier Milei, e a Casa Rosada precisou demitir, em agosto daquele ano, Diego Spagnuolo, na época diretor do órgão. Spagnuolo também já foi advogado de Milei e era considerado próximo ao político.

O escândalo foi conhecido pelos argentinos após a divulgação de uma série de gravações com relatos de supostos pedidos de suborno e também menções à Karina Milei, irmã do mandatário e secretária-geral da Presidência.

Nos áudios, Spagnuolo falava de supostas propinas solicitadas aos laboratórios que forneciam medicamentos para a Andis.

O avião usado por Flávio é um Gulfstream G400, de matrícula LV-JQW. De fabricação americana, um G400 usado tem preço estimado entre US$ 7 milhões (R$ 37,3 milhões) e US$ 9 milhões (R$ 48,1 milhões), segundo a empresa especializada The Jet Collection.

O anúncio de venda informa que o jatinho foi fabricado em 2004 e tem 9.210,3 horas de voo e 4.048 pousos.

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