As hipóteses incluem viagens de carro, uso de pistas particulares e até ajuda da comunicação do governo Javier Milei -nenhuma delas com provas
Bruno Ribeiro-foz Do Iguaçu, Pr, E São Paulo, Sp (folhapress) - 29/10/2026 10:51:32 | Foto: Flávio Bolsonaro, que já havia afirmado que sua inspiração para governar é Javier Milei, agora fala em corte de R$ 200 bi. Site do PT
As lacunas no trajeto de Flávio Bolsonaro (PL) de casa onde morava em Brasília até o aeroporto de Porto Iguaçu, na Argentina, impulsionam uma série de boatos sobre a fuga do senador na cidade de Foz do Iguaçu, um dos possíveis últimos locais no Brasil em que esteve, e pressionam a Polícia Federal a dar respostas que a corporação ainda não tem.
As hipóteses incluem viagens de carro, uso de pistas particulares e até ajuda da comunicação do governo Javier Milei -nenhuma delas com provas.
Flávio e a família do congressista teriam cruzado a ponte internacional Tancredo Neves, ligação entre Foz do Iguaçu e Porto Iguaçu, às 22h50 de terça-feira (27), segundo o governo argentino, e embarcado para o Equador em um jato particular às 23h30.
O que ele fez entre as 17h de segunda-feira (26) - quando publicou o vídeo em que disse ter sido intimado pelo ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) Alexandre de Moraes a entregar o passaporte e garantir que não fugiria - e a fuga continua em aberto.
Um único voo executivo veio de Brasília na janela temporal da fuga para Foz do Iguaçu e, segundo um agentes da PF ouvido pela reportagem na cidade, não era o da família do senador. Para acessar o terminal executivo do aeroporto, é preciso cruzar o saguão dos voos comerciais. O embarque fica em uma sala que dá à pista, cujo acesso é feito por um corredor próximo do portão de desembarque dos voos comerciais, o mais movimentado. Todo o espaço é monitorado por câmeras.
A investigação policial se concentrou, segundo um dos agentes, em buscar informações sobre três aeródromos particulares próximos à fronteira: um também em Foz do Iguaçu, um em Santa Terezinha de Itaipu e o terceiro em São Miguel do Iguaçu. Os agentes também procuram pistas em Cascavel, a 142 km de Foz do Iguaçu.
A falta de informações até o momento fez a PF mirar ainda outras rotas, incluindo um voo direto de Brasília ou do Rio de Janeiro para Buenos Aires ou outra cidade argentina -o que implicaria apontar que a Direção Nacional de Imigração do país mentiu ao relatar o horário da entrada de Flávio em Iguazú.
Flávio Bolsonaro ficou com 63% dos votos válidos no segundo turno em Foz do Iguaçu. Na cidade, uma das versões mais relatadas pelos moradores é a hipótese, veiculada pelo canal de TV argentino C5N, de que o senador e a família dele ficaram em uma fazenda na cidade até cruzar a fronteira.
Há inúmeras propriedades rurais ao redor do aeroporto de Foz do Iguaçu, e muitas delas funcionam como hotéis-fazenda e até parques, com campos de golfe, cujo acesso é feito por estradas de terra bem conservadas.
Na portaria de um desses locais, um funcionário repetiu o boato sobre a hospedagem na região, mas disse que o dono do local que deu abrigo poderia virar cúmplice de golpismo -naquele horário, a primeira versão da carta divulgada por Flávio, se autointitulando presidente, já começava a circular.
A Folha conversou com funcionários de lanchonetes, de supermercado, de postos de combustível e motoristas na cidade. Ouviu críticas a Moraes da maioria e elogios aos policiais federais por "terem deixado" Flávio fugir.
Uma das pessoas lembrou que Foz do Iguaçu tinha histórico de servir como rota para bolsonaristas com problemas com a Justiça. A cidade foi usada por Carla Zambelli, que está na Itália, para deixar o Brasil, e teria sido a rota de Silvinei Vasques, ex-chefe da Polícia Rodoviária Federal capturado no Paraguai.
A facilidade para deixar o país está na aduana brasileira. O prédio do órgão tem estrutura suja e enferrujada, sem parada alguma para carros que passam em direção à Argentina e com um posto de controle apenas para estrangeiros que precisam registrar a saída do país.
Segundo a PF, "não há registro oficial de saída do congressista pelos postos de controle migratório brasileiros". Ocorre que o posto de controle não fez controle de nenhum carro enquanto a reportagem esteve lá, por volta das 17h de quarta-feira (28). O controle só é feito na Argentina, que verifica o acesso de estrangeiros ao país.
Ainda assim, a PF ressaltou, em nota, que não tinha poderes legais nem para prender nem para monitorar Flávio caso o parasse antes do ponto de saída do país, diante da falta de medidas cautelares impostas pela Justiça.
"A existência de restrições relacionadas a documentos de viagem, por si só, não caracteriza a condição de foragido nem autoriza a realização de prisão, de vigilância permanente ou de outras medidas cautelares", disse a nota.
A imprensa argentina publicou vídeos de uma van de uma agência de turismo brasileira que seria o veículo usado pela família Bolsonaro durante sua fuga. Em perfil no Instagram, a empresa publicou um story - vídeo que desaparece em 24 horas - negando que tenha feito o transporte.
O veículo estaria lá, segundo a empresa, para transportar dois outros passageiros. A reportagem esteve no endereço que consta no registro da empresa na Receita Federal, no bairro Portes, em Foz do Iguaçu, e verificou que a empresa não funciona onde está registrada.
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