Das convenções partidárias à inclusão digital, o noticiário desta terça-feira mostra que a administração pública avança, mas ainda convive com o desafio de fazer as mudanças chegarem igualmente a todos os cidadãos
Por João Zisman - 04/08/2026 10:11:04 | Foto: © TÂNIA RÊGO/AGÊNCIA BRASIL
O noticiário desta terça-feira reúne temas que, à primeira vista, não conversam entre si. As convenções partidárias entram em seus últimos momentos antes do encerramento do prazo legal. O Tribunal de Justiça promove uma ação de inclusão digital em Samambaia. A Defensoria Pública realiza mais uma edição do Dia da Mulher. A Secretaria de Saúde mantém a campanha de multivacinação. As Agências do Trabalhador oferecem quase mil vagas de emprego. A Polícia Militar reúne moradores para discutir segurança comunitária.
Cada notícia ocupa uma editoria diferente. Lidas em conjunto, porém, contam uma história parecida.
Todas tratam, de alguma forma, da dificuldade de transformar políticas públicas em acesso efetivo.
Na política, as convenções resolvem um problema dos partidos, não necessariamente do eleitor. As alianças estão praticamente definidas, mas isso não responde às perguntas que costumam orientar o voto: quem administrará melhor a saúde, o transporte, a segurança ou a geração de empregos?
Na saúde, a campanha de multivacinação enfrenta um desafio semelhante. Vacinas existem, unidades de atendimento também. O obstáculo continua sendo alcançar quem deixou de comparecer, quem perdeu a caderneta, quem adiou uma dose ou simplesmente ficou distante da rede pública.
O mesmo raciocínio aparece na ação promovida pela Defensoria Pública. Não basta que direitos existam. É preciso que mulheres em situação de vulnerabilidade consigam chegar aos serviços de saúde, assistência, orientação jurídica e proteção. Reunir esses atendimentos em um único espaço é uma tentativa de reduzir barreiras que, muitas vezes, parecem invisíveis para quem não depende delas.
A inclusão digital promovida pelo Tribunal de Justiça segue a mesma lógica. O processo eletrônico tornou a Justiça mais rápida em muitos aspectos, mas também criou uma nova exigência: saber navegar por plataformas digitais. Quem não consegue utilizar essas ferramentas corre o risco de ficar distante de um serviço que, em tese, continua disponível para todos.
Até mesmo o mercado de trabalho apresenta esse contraste. As Agências do Trabalhador anunciam quase mil vagas abertas, mas isso não significa automaticamente quase mil empregos preenchidos. Entre a oportunidade e a contratação existem fatores como qualificação, transporte, remuneração, localização e compatibilidade entre o perfil do candidato e a necessidade da empresa.
Talvez essa seja a principal característica do noticiário de hoje. O Distrito Federal não sofre com falta de iniciativas públicas. Ao contrário. Há programas, campanhas, mutirões, plataformas, vagas, reuniões comunitárias e serviços distribuídos por diferentes áreas da administração.
A pergunta que permanece é outra: quantas pessoas conseguem, de fato, chegar até eles?
Essa talvez seja uma forma mais útil de observar o funcionamento do poder público. Não apenas pelo número de ações anunciadas, mas pela capacidade de transformar disponibilidade em acesso. Afinal, entre um serviço existir e um cidadão conseguir utilizá-lo, ainda existe um percurso que nem sempre aparece nas estatísticas. E é justamente nesse percurso que muitas políticas públicas acabam sendo realmente testadas.
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