Por Miguel Lucena e Maria José Rocha Lima: Mães atípicas: Quem cuida de quem cuida?

O encontro contou com a participação de mães atípicas e de várias entidades representativas da causa das famílias de pessoas neurodivergentes

Por Miguel Lucena e Maria José Rocha Lima: Mães atípicas: Quem cuida de quem cuida?
Por Miguel Lucena e Maria José Rocha Lima: Mães atípicas: Quem cuida de quem cuida?

Miguel Lucena E Maria José Rocha Lima - 19/06/2026 17:52:53 | Foto: Miguel Lucena e Maria José Rocha Lima

A Audiência Pública sobre Mães Atípicas – Realidades e Desafios, realizada nesta sexta-feira, das 9h às 13h, por iniciativa da deputada federal Érika Kokay, colocou no centro do debate uma realidade ainda marcada pela invisibilidade: a sobrecarga das mulheres que cuidam, quase sempre sozinhas, de filhos neurodivergentes, com deficiência, doenças raras ou transtornos psiquiátricos e neurológicos.

O encontro contou com a participação de mães atípicas e de várias entidades representativas da causa das famílias de pessoas neurodivergentes. Durante a audiência, uma pergunta atravessou todos os relatos: quem cuida das mães que cuidam? As falas de especialistas, representantes de movimentos sociais e familiares revelaram um quadro de exaustão física, emocional e financeira. Muitas mães abandonam carreiras, reduzem jornadas de trabalho, enfrentam empobrecimento, isolamento social, ansiedade, depressão e sofrimento psíquico intenso.

A audiência também expôs as fragilidades da chamada inclusão escolar. Embora a legislação assegure o direito à educação inclusiva, a prática mostra escolas sem estrutura adequada, professores sem formação suficiente, falta de profissionais de apoio e ausência de espaços de acolhimento para momentos de crise ou regulação emocional. Assim, muitos estudantes permanecem dentro da escola, mas fora da convivência plena e da aprendizagem efetiva.

Entre as propostas debatidas, ganharam destaque a criação de “salas de cuidados”, espaços de acolhimento temporário para estudantes que necessitam de apoio especializado durante a rotina escolar; a produção de estatísticas mais precisas sobre a população neurodivergente; maior fiscalização dos planos de saúde; flexibilização da jornada de trabalho para mães atípicas; e revisão dos critérios do Benefício de Prestação Continuada, considerando os altos custos com terapias, medicamentos, transporte e cuidados permanentes.

A audiência cumpriu, assim, um papel essencial: transformar dor privada em pauta pública. O cuidado não pode continuar sendo responsabilidade solitária das mães. É dever do Estado, da escola, do sistema de saúde, das empresas e da sociedade construir uma rede real de proteção, acolhimento e dignidade para quem cuida todos os dias.

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